O novo, o velho e o gavião pato: uma crônica

O lado bom é que o que separa o novo do velho não é apenas a pandemia de Covid-19. Há algo de bom separando o presente do pretérito: no velho normal eu ainda não era pai do Arthur.

No novo normal, a fotografia de aves tem se resumido a breves escapadas, ora na Granja do Sossego, ora em Ubiretama, que impedem que o velho normal se apague.

No velho normal, tinha passarinhada praticamente todo mês, e o cartão de memória sempre tinha um ou outro lifer para baixar no PC, passar pelo Lightroom e acabar no Wikiaves e nas redes sociais.

No novo normal, eu vejo as pessoas falando de aves, registros, lugares, novas espécies para o Município ou para o Estado e pouco tenho a dizer, já que o velho normal já anda tão velho que começa a apresentar problemas de memória.

O lado bom é que o que separa o novo do velho não é apenas a pandemia de Covid-19. Há algo de bom separando o presente do pretérito: no velho normal eu ainda não era pai do Arthur.

Ser pai do Arthur me faz pensar que o novo normal não poderia mesmo ser igual ao velho normal, houvesse pandemia ou não. Afinal, aqui em casa temos dedicado praticamente todo nosso tempo a sermos pais do Arthur.

O curioso é que ser pai do Arthur é, ao mesmo tempo, o que me aproxima do velho normal, pois é a ele que eu fico mostrando as aves que pousam na antena do vizinho, no fio de luz e no Ipê-amarelo do outro lado da rua, assim como aquelas que estão nos livros, na TV e nos quadros que a minha mãe pintou.

E é por causa do Arthur, que já demonstra um interesse genuíno pelas aves e faz lá as suas imitações de coruja, pica-pau, gavião e falcão, que o velho normal invadiu com o força o novo normal para me fazer lembrar de um dos encontros mais memoráveis até agora: o encontro com o Gavião-pato!

Outro dia eu estava mostrando para o Arthur os gaviões e as águias no guia de campo do Dante (As Aves da Região Noroeste do Rio Grande do Sul) e, enquanto eu mostrava as espécies e dizia o seu nome, aproveitava para falar quais eu já “conhecia de perto”. De todas as águias do guia, eu só tive o prazer de fotografar duas e, ainda que os encontros com a Águia-serrana tenham sido marcantes, não se comparam com o primeiro avistamento da bela e imponente águia florestal.

Foi aí que o velho normal veio à tona, e ele veio em preto e branco, ou melhor, melanoleucus, com máscara e topete pretos e um ar sereno e majestoso típico de quem ocupa o topo da cadeia alimentar.

No velho normal, eu costumava ir com certa frequência ao Parque Estadual do Turvo (Derrubadas/RS) e certa feita, enquanto eu ministrava algo parecido com uma oficina de fotografia para alunos da rede municipal de Derrubadas (era a semana do Meio Ambiente e o Dante e o Alfieri também participavam, mas isso é história para outro dia), fui avisado de que o Gavião-pato estava logo ali, na borda do parque, pousado no alto de uma Grápia.

Acabei deixando as crianças fazendo outra atividade e fui ao encontro da águia branca e preta. O seu branco puro, como diz o Dante no guia, contrastava com o céu acinzentado ao fundo e, à medida que eu avançava, barulhento e desajeitado, pela lavoura que estava entre mim e a águia, a imponente ave permanecia inabalada, segura de si e, gosto de pensar, sabedora de que nenhuma ameaça se aproximava.

Gavião-pato (Spizaetus melanoleucus) pousado em uma Grápia na borda do Parque Estadual do Turvo, em Derrubadas/RS. 16.03.2017.

Depois daquele encontro, o velho normal ainda me presentearia com alguns registros do Gavião-pato em voo, bem de longe, pelos quais sou grato.

Mas é aquele encontro, duradouro e único, que se faz presente no novo normal.

E foi assim, revivendo esse momento, que mais uma vez tive certeza de que o novo normal, com menos tempo para fotografar aves, é muito melhor (exceto pela pandemia), pois agora tenho o Arthur, que já faz lá as suas imitações de coruja, pica-pau, gavião e falcão.

Autor: Adaltro C Zorzan

Sou apaixonado por aves e fotografia, embora minha área de formação seja outra. No meu tempo livre, costumo ir a campo, de câmera em punho, para passarinhar. Apesar da limitação pessoal e do equipamento, busco sempre trazer no cartão de memória a melhor imagem possível de cada ave encontrada.

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