Adaptar-se é preciso

A observação de aves agora exige mais cautela e menos pessoas. Muita coisa mudou, mas o prazer ainda é o mesmo.

Adaptação é um conceito de grande relevância no estudo da evolução das espécies. Nas aves, um exemplo interessante é o caso dos urubus que ocorrem nas Américas em comparação com os abutres africanos. Dante Meller, biólogo, ornitólogo e amigo passarinheiro, ensina que embora não se tratem de espécies da mesma família (os urubus são Catartídeos enquanto os abutres são Acipitrídeos), elas apresentam notáveis características em comum, como o bico e as garras fortes para arrancar as entranhas das carcaças e a ausência de plumagem no pescoço para evitar a aderência de restos de alimentos. As semelhanças se justificam pelos hábitos alimentares, já que tanto umas quanto outras se alimentam principalmente de carcaças e, assim, adaptaram-se para fins de sobrevivência, em um fenômeno que se chama de convergência adaptativa.

Os fotógrafos e observadores também precisaram se adaptar para continuar – ou voltar a – apreciar as belezas da natureza alada, já que a atual situação de (necessário) isolamento social, em decorrência da pandemia de Covid-19, impôs grandes restrições à circulação de pessoas.

O Ave Missões, por exemplo, já havia planejado todas as saídas de 2020, contemplando os hotspots regionais – em sua maioria, Mata Atlântica -, bem como a Fronteira Oeste do Estado do Rio Grande do Sul e a incomparável Lagoa do Peixe, no Litoral Sul. Mas, num primeiro momento, a cautela e, então, a necessidade, acabaram alterando os planos do grupo, que até agora não se reuniu para passarinhar nesse ano.

Isso não quer dizer que os passarinheiros deixaram de passarinhar, pois, como dizia o saudoso Jayme Caetano Braun, “(…) o vício é que nem sarnoso, nunca para nem se ajeita“. Só que uma passarinhada agora requer cuidados especiais, nem que isso signifique passarinhar sozinho ou com um grupo muito reduzido, usando máscaras e em carros separados.

Adaptar-se é preciso, pois!

Mais do que o normal, no contexto atual o lifer e a espécie rara perdem um pouco a relevância, pois se já é difícil o bastante ter a oportunidade de sair para observar aves , o que dizer de buscar registros mais difíceis? Assim, feliz daquele que dispõe do seu próprio santuário de aves, como um sítio, uma granja ou mesmo um mato ou campo pertinho de casa e com baixa circulação de pessoas. E feliz daquele que conhece alguém nessa condição que esteja disposto a franquear-lhe o acesso ou acompanhar-lhe em uma saída cautelosa e responsável.

No meu caso, tive a oportunidade de fotografar aves na Granja do Sossego, que é propriedade particular dos amigos Paulo e Márcia e fonte de muitos dos registros feitos em Santo Ângelo, alguns muito importantes. Além dos banhados e outras áreas preservadas, os ávidos observadores mantêm uma “ceva” em um local em que se podem flagrar algumas espécies interessantes se alimentando e bebendo água sem suspeitar da presença dos fotógrafos. A estrutura inclui bastante sombra e um blind atrás do qual há espaço para colocar um banquinho e instalar o tripé da câmera, acessório importante nesse ambiente de pouca luminosidade (as aves estão dentro do mato).

Foi assim, sentado em um banquinho e usando máscara, que tive o prazer de fotografar aves depois de um longo tempo de inatividade. Não demorou muito para aparecer um casal de Jacus (Jacuguaçu), espécie sabidamente arisca mas que, nessas circunstâncias, mostrou-se completamente à vontade. As fotos me agradaram muito, principalmente porque, ao contrário dos meus registros anteriores, a ave não estava apenas de perfil, e, além disso, gostei do contraste e do vívido vermelho dos olhos.

Jacuguaçu (Penelope obscura) à vontade na Granja do Sossego, em Santo Ângelo, RS, 30.5.20

Para a alegria dos fotógrafos, o local tem alguns excelentes poleiros, daqueles que permitem “pegar” a ave fazendo pose e ainda desfocar o fundo. Foi nesse contexto que um belo azulão resolveu mostrar toda a sua beleza.

Azulão (Cyanoloxia brissonii) exibindo sua bela plumagem. Granja do Sossego, em Santo Ângelo, RS, 30.5.20.

O destaque do dia, porém, ficou por conta de um Inhambu-chintã, que é outra ave conhecida por ser furtiva e que na ceva da Granja se sente em casa. E o melhor de tudo é que nenhuma das aves registradas foi importunada, cabendo ainda mencionar que o local não é de amplo conhecimento popular nem de fácil acesso para eventuais terceiros mal-intencionados. Em outras palavras, é alegria do observador que não prejudica nossos amigos de penas.

Inhambu-chintã (Crypturellus tataupa) se sentindo em casa na Granja do Sossego. Santo Ângelo, RS, em 30.5.20.

Assim, a visita à ceva foi uma passarinhada com adaptações. Não durou muito tempo, não envolveu muitas pessoas e nem a busca por esta ou aquela espécie. Cada ave que aparecia era uma oportunidade de tirar o pó do obturador e apreciar um animal em liberdade a poucos metros de distância. A necessidade de usar máscaras e a limitação de espaço foram amplamente compensadas pelos encontros proporcionados com as aves e os amigos observadores cuja companhia costumava ser mais frequente em outros tempos, não muito distantes.

Como mencionado anteriormente, outra opção é encontrar um lugar frequentado por aves, mas sem muita gente por perto. O silêncio, aliás, é o que se busca muitas vezes quando se vai a campo. E como “adaptação” é a palavra de ordem, uma breve visita a uma lagoa a poucos quilômetros de onde eu moro foi uma bela maneira de ganhar o dia, não só por ser um lugar com potencial para bons registros e fotos, mas também porque pude levar a família comigo, quebrando um pouco a rotina imposta pela quarentena.

Ainda por cima, havia a expectativa de encontrar a Marreca-cricri, que havia sido registrada há poucos dias no local (1º registro documentado da espécie para a região noroeste do Estado) pelos amigos Dante e Alfieri. A cricri seria para mim um registro muito interessante, pois só a fotografei em duas oportunidades e em ambas muito de longe.

Como era uma passarinhada com cara de passeio em família, a primeira coisa que fizemos (minha esposa estava comigo) foi tirar umas fotos de celular com o nosso filho Arthur, que estava muito interessado num cachorro que latia fortemente. Logo veio o dono do cachorro conversar conosco, um senhor muito amistoso que acabou nos presenteando com uma sacola de laranjas. Eu pedi autorização para ele e fui em direção à lagoa, já percebendo que não havia muitas aves por ali. A Clarice ficou com o Arthur no colo e conversando com esse simpático senhor. O Arthur, por sua vez, continuava interessado no cachorro, que agora estava bem perto.

Sem grandes pretensões, peguei o binóculo e avistei algumas marrecas Pé-vermelho e uns dois Pernilongos-de-costas-brancas. As marrecas, ariscas que são, logo levantaram voo e não havia nem sinal da Marreca-cricri. A olho nu, notei uma ave de grande porte bem no fundo da lagoa, pousada já na vegetação. À primeira vista, pensei que era uma Maria-faceira, mas à medida que me aproximei, percebi que era um Socó-boi, animal que considero muito interessante. A identificação presumida logo se confirmou.

Decidi me aproximar e antes tentei mais uma vez encontrar a cricri, mas as marrecas agora estavam muito longe e contra o sol, de modo que foquei no Socó-boi. Usando minha experiência de encontros anteriores, deixei a câmera configurada para fotos em voo, pois estava certo de que o Socó já tinha me visto também e não demoraria para “decolar”. A previsão se confirmou e consegui uma sequência de fotos em voo dessa bela ave, mas o resultado não foi muito bom em grande parte devido à forte incidência da luz do sol no corpo dela.

Socó-boi (Tigrisoma lineatum) em voo. Lagoa em Eugênio de Castro, RS, em 16.6.20.

Consegui ainda algumas fotos das marrecas Pé-vermelho em voo, compondo uma cena que é sempre muito bonita de se ver. Achei muito interessante essa imagem porque ela comprova o comportamento da espécie de ficar em casais. Além disso, é em voo que essas marrecas mostram o verde de suas asas, característica que para esse blogueiro é a mais atraente dessa marreca.

Bando de marrecas Pé-vermelho (Amazonetta brasiliensis) em voo. Na imagem é possível notar a presença de 3 casais voando lado a lado. Eugênio de Castro, RS, em 16.6.20.

E assim terminava essa saída que mais pareceu um passeio em família, o que foi confirmado pela parada em um posto de combustível para tomar cappuccino e comer pastel.

Como se vê, em tempos de pandemia a alegria de uma passarinhada pode vir em doses esparsas, aplicadas em momentos fugazes, mas que por não serem comuns se tornam mais valiosos.

E não se diga que a falta de registros raros tirou o brilho de tais momentos. Ao contrário, em cada uma dessas ocasiões eu pude voltar para casa com um sorriso daqueles que acompanham um sentimento de realização.

Como disse antes, as passarinhadas se tornaram mais escassas e agora exigem uma nova abordagem, com mais cuidados e menos gente.

Adaptar-se é preciso, pois.

Por fim, talvez como um sinal de adaptação, compartilho com os leitores alguns versos que escrevi inspirado pelas aves e pelo nascimento do meu filho. São algumas rimas feitas com as espécies que registrei com amigos em uma saída em maio de 2019 (confira a lista aqui). Comecei a escrevê-los em setembro de 2019 e retomei a tarefa nessa semana. Nem só de perto e através das nossas lentes é que as aves se apresentam.

OLHA, EU NÃO SOU DAQUI
Olha, eu não sou daqui
Tô só de passagem
 
Mas preciso aproveitar
Não quero perder a viagem
 
Me leva onde tem fim-fim, gaturamo e surucuá
Me leva rapidinho que eu quero é passarinhar
 
Quem sabe pula-pula, tiriba e joão-teneném
Não tenho muito tempo, mas isso me faz bem
 
E quem sabe na cruzada
Tenha trinca-ferro, pombão e socó-boi
Me indique o caminho que eu lhe conto como foi
 
Me veja rolinha, asa-branca, avoante e pupu
Aproveita e vê também um ou dois tapicurus
 
Quero ver se acho risadinha, neinei e pitiguari
Como não tem lá em casa, quem sabe tenha aqui
 
Sabiá eu quero uns três, o poca, o do campo e o laranjeira
Garça ao menos duas: a branca e a vaqueira
 
Perto do rio, deve haver saracura e coró-coró
Gavião faço questão, nem que seja o carijó
 
Quero ao menos ouvir a voz de juruviara e pi-puí
Se não tiver nenhum desses vou parando por aqui
 
Deve ter muito mais bicho
Voando por aí
 
Mas não vai dar pra ficar
Porque eu não sou daqui
 
Queria ver mais, mas nem tenho hospedagem
Deve ter mais ave, mas eu tô só de passagem

Autor: Adaltro C Zorzan

Sou apaixonado por aves e fotografia, embora minha área de formação seja outra. No meu tempo livre, costumo ir a campo, de câmera em punho, para passarinhar. Apesar da limitação pessoal e do equipamento, busco sempre trazer no cartão de memória a melhor imagem possível de cada ave encontrada.

4 comentários em “Adaptar-se é preciso”

  1. Grande Adaltro! Mais um belo e estimulante texto sobre a prazeirosa aventura de passarinhar e suas necessárias adaptações em tempos de pandemia! Parabéns meu amigo!!!

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