O amor pelas aves em tempos de isolamento

A pandemia de coronavírus nos distanciou – fisicamente – de nossas famílias e de nossos amigos. Também nos distanciou da natureza e das aves.

Alguém já disse que a dor da saudade só faz aumentar a alegria do reencontro e esse é um pensamento acalentador, que vale para as pessoas do nosso convívio e também para nossos amigos alados. Enquanto não chega a hora do reencontro, porém, precisamos achar outras formas de não perder o contato com aqueles que amamos, e a tecnologia da comunicação tem nos permitido ver os rostos e ouvir as vozes mais familiares, sem contar a boa e velha comunicação escrita.

Mas e a natureza? E as aves? Como ficam?

Felizmente, a mesma tecnologia que nos permite manter o contato com aqueles que amamos, permite que possamos ao menos “dar uma espiada” nos nossos amigos alados ao redor do mundo. Um excelente exemplo desse serviço é o site do Cornell Lab, que oferece um menu de espécies para visualização em tempo real. Em redes sociais, muitas pessoas compartilham imagens dos seus jardins e comedouros. E aplicativos de mensagem tornam possível mostrar aos amigos aquele flagra de uma espécie que apareceu no seu quintal ou que acabou de sobrevoar a sua casa.

O isolamento teve o poder de nos remeter à forma mais básica de observação de aves: observar, prestar atenção e sentir satisfação por encontrar mesmo as espécies mais comuns. Felizmente, as aves não estão de quarentena e mesmo aqueles que moram em grandes centros e locais mais movimentados em algum momento têm a oportunidade de ver ou fotografar aves. Quando a oferta é menor, o “produto” é mais valorizado, diz uma velha mas sempre verdadeira lei do mercado.

De minha parte, tenho visto pomba, joão-de-barro, sabiá-do-campo, sanhaço-cinzento, fim-fim, sanhaço-papa-laranja, bem-te-vi e até mesmo alguns rapinantes com certa frequência, sempre que tiro um tempo para ir até a sacada ou olhar pela janela.

É muito interessante notar o “vai e vem” dos pássaros nas primeiras horas do dia. Perceber a diferença no seu comportamento quando está ventando ou faz mais calor. Ao meio-dia, com o sol a pino, parece que todos eles se foram, mesmo que a gente saiba que logo eles estarão de volta. Antes mesmo de clarear, já é possível ouvir um bem-te-vi, que canta logo ali, com o seu “canto do amanhecer”.

Mesmo sem querer, durante o dia se ouve a insistente vocalização de um fim-fim, embora nem sempre se saiba de onde ele vem e por mais que se encontre a origem do som essa bela ave continue escondida na copa da árvore ou mesmo atrás de uma folha. Não foram poucas as vezes em que eu parei o que estava fazendo e fui correndo até a janela ou a sacada para encontrá-lo e registrá-lo, sempre na esperança de “ver o bichinho no limpo”. Ironicamente, a foto veio quando ele não estava vocalizando, mas simplesmente pousado no Ipê-amarelo que fica do outro lado da rua, quem sabe acreditando que não tinha ninguém a observá-lo:

Fim-fim (Euphonia chlorotica) pousado em um Ipê-amarelo num dia qualquer de isolamento social.

Num dia desses como qualquer outro – que na quarentena todos os dias parecem iguais – tive a felicidade de “pegar” um gavião-do-banhado voando baixo e lentamente ao redor do prédio onde moro. Foi um grande alento para um passarinheiro enclausurado:

Gavião-do-banhado (Circus buffoni) no centro da cidade.

Nesse mesmo dia ainda fiz foto de avoante e andorinhão-do-temporal, esse último sempre um desafio para o fotógrafo, já que a ave não costuma pousar e tem um voo muito rápido.

Para mim, esses registros foram gratificantes, pois me fizeram lembrar que ainda sou um observador e que as aves ainda estão lá, a nos esperar. Tenho certeza de que muitos outras pessoas, observadoras de aves ou não, viveram momentos parecidos e sentiram o tipo de alegria que só a natureza nos proporciona.

Mas o que importa, nesses dias em que nos esforçamos para manter um ar de normalidade, não é a espécie observada e nem mesmo a qualidade da foto. O que importa, nesses dias difíceis, é que sigamos observando, que não percamos o amor pela natureza, que busquemos novas formas de contato com ela, como fazem aqueles que acabam descobrindo que no seu jardim respira um outro mundo cheio de vida, habitado por insetos e plantas.

Quem sabe, quando esses dias ficarem para trás, o homem passe a dar mais valor àquilo de que agora está privado. Fica a esperança de que seremos todos mais solidários e gratos pela oportunidade de conviver com outras pessoas e de que saberemos apreciar a natureza em todas as suas formas.

Para nós, observadores de aves, fica a esperança de que lembraremos da alegria que sentimos quando uma avoante ou um fim-fim era tudo que podíamos observar.

Autor: Adaltro C Zorzan

Sou apaixonado por aves e fotografia, embora minha área de formação seja outra. No meu tempo livre, costumo ir a campo, de câmera em punho, para passarinhar. Apesar da limitação pessoal e do equipamento, busco sempre trazer no cartão de memória a melhor imagem possível de cada ave encontrada.

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